Vista Alegre, o reino da porcelana

Parece uma vila com sua igreja, creche, escola, fábrica e corpo de bombeiros. Bem-vindo a uma utopia social do século XIXe século, na zona industrial e turística da Vista Alegre em Ílhavo, 80 quilómetros a sul do Porto, em Portugal. Aqui, na mais antiga fábrica de porcelanas do país (fundada em 1824), tudo pode ser visitado: a capela barroca com azulejos e talha dourada Nossa Senhora da Penha de França – classificada como monumento nacional graças, nomeadamente, a esta estátua de uma jazida estátua do escultor francês Claude Laprade –, o pequeno teatro, outrora local de diversão dos trabalhadores, ou mesmo as ruelas com as suas casas brancas e ocres, como uma povoação sob o sol, onde viviam até quinhentas pessoas na década de 1940.

O coração pulsante do local é o Museu Histórico da Vista Alegre, renovado em 2016 e aninhado na antiga fábrica com duas lareiras a lenha. A visita começa com uma sala dedicada a José Ferreira Pinto Basto (1774-1839), empresário visionário que se tornou símbolo da iniciativa privada em Portugal e cujos quinze filhos formaram uma espécie de dinastia industrial. Escolheu, há duzentos anos, instalar-se nesta região rica em argila, areia branca e seixos cristalizados – materiais essenciais para o fabrico de vidraria e porcelana –, à beira da Ria de Aveiro que desemboca no Atlântico, dando acesso aos portos marítimos.

Entrada do museu, na histórica fábrica da Vista Alegre em Ilhavo, Portugal.

A fábrica iniciou imediatamente a produção de copos, garrafas e jarras de cristal habilmente cortados e utensílios de mesa de cerâmica natural. Na época, ainda não sabíamos o segredo da porcelana fina, que vinha da China. Para perfurá-la, Augusto Ferreira Pinto Basto, filho do fundador, ficou na fábrica de cerâmica de Sèvres, na França, onde estudou a composição do barro ali utilizado. Em 1832, os seus novos conhecimentos permitiram-lhe descobrir grandes jazidas de caulino a norte de Ilhavo.

A partir daí, a Vista Alegre deslanchou. Na década de 1920, lançou um departamento de design sob a influência do modernismo e do art déco, e colaborou com artistas, especialmente portugueses. Uma escola integrada no local também forma os melhores trabalhadores em desenho e pintura em porcelana.

Jarro de sapo verde e prato de folha de repolho

Atrás da fileira de vitrines, podem ver-se serviços de jantar para a família real e pratos ainda em voga nas embaixadas portuguesas. Ao longo do caminho, oficinas são oferecidas para desenhar ou pintar um padrão em porcelana. À saída do museu, a loja de porcelanas apresenta as suas criações contemporâneas, em colaboração com grandes designers como os brasileiros Campana, o britânico Ross Lovegrove ou o francês Sam Baron.

Em frente, outra loja merece o desvio: a da Bordallo Pinheiro, que agora pertence ao mesmo grupo industrial português Atlantis que a Vista Alegre. Há faiança artesanal, kitsch e por isso muito popular: andorinhas que enfeitam as portas das casas portuguesas, jarro de sapo verde, prato de folha de couve e jarro assinado pela ex-modelo Claudia Schiffer, eriçado de borboletas azuis.

Um hotel de luxo, o Montebelo, também pertencente ao grupo, implanta os seus quartos com terraços junto ao rio, com piscina exterior e mini-spa no interior. Para aperfeiçoar o postal, a poucos metros está a vila de Aveiro, famosa pela sua arquitetura Art Nouveau e pelos seus canais, que lhe valeram o nome de Pequena Veneza de Portugal, e, a 10 quilómetros, as pitorescas casinhas às riscas da Costa Nova, no Atlântico.

Vista Alegre 3830-292 Ilhavo. Tal. : +351 234 320 600. Vistaalegre. com

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Chico Braga

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