Portugal descobre a sua primeira pintura rupestre de uma mulher em trabalho de parto | cultura e entretenimento

“Uma pintura especial”. Um grupo de arqueólogos descobriu numa das grutas do Parque Natural da Serra de São Mamede, junto à fronteira hispano-portuguesa, a primeira pintura rupestre de uma mulher em trabalho de parto encontrada em Portugal.

“É a primeira vez que se descobre em Portugal a figura de uma mulher grávida do seu filho, daí a importância que tem para nós”, disse o arqueólogo e professor da Universidade de Évora Jorge de Oliveira em entrevista à Efe.

A gruta portuguesa do Ninho do Bufo, onde foi feita a descoberta, foi descoberta por acaso há 20 anos em plena luz do dia, quando uma jovem que sofreu um acidente encontrou abrigo no seu interior, mas só no ano passado quando a investigação começou.

Apesar de estar repleta de pinturas “muito simbólicas”, esta é a que mais se destaca por ter a “melhor leitura”: “É antropomórfica, ou seja, tem a figuração de um ser humano, neste caso uma mulher” que é ter um filho.

“É uma pintura esquemática em que se vê muito bem a cabeça, os braços, o tronco, as pernas abertas e no meio das pernas uma figura humana de um menino que sai de cabeça baixa como de costume, com bracinhos, mas o resto fica dentro da figura”, completa Oliveira.

Segundo a pesquisa, todas as pinturas rupestres desta gruta estão inseridas no ciclo esquemático da península, no espectro cultural entre o Neolítico e o Calcolítico Médio, entre 5.000 ou 6.000 anos antes de Cristo.

ÚNICO E CURIOSO

A pintura encontra-se na zona “mais escura e remota” da gruta, o que tem dificultado a sua localização.

Como curiosidade, o arqueólogo destaca seu ambiente de “religiosidade simbólica” e aponta que a única época do ano em que a luz natural incide diretamente sobre ele é durante o solstício de verão.

Além disso, há sinais que indicam que foi tocado pela mão humana. “Suponho que alguma mulher grávida poderia ir lá e tocar a figura, porque ela mostra sinais de que alguém a tocou, mas não foi destruída. Há simbolicamente contato humano direto”, diz ela.

Junto com a imagem da mulher em trabalho de parto há derivados de difícil interpretação: “São pontos vermelhos de pegadas, mas não sabemos o que significam”.

UMA FRONTEIRA CHEIA DE ARTE

Só na Serra de São Mamede, situada na fronteira entre Valência de Alcântara (Espanha) e Marvão (Portugal), existem mais de 50 grutas com pinturas rupestres do chamado estilo esquemático.

“Toda a serra, tanto a parte portuguesa como a parte espanhola, está repleta de pinturas esquemáticas”, explica o professor da Universidade de Évora, mas apenas nas zonas viradas a sul.

As manifestações pictóricas têm uma gramática estilística e cromática muito regular, são maioritariamente vermelhas ou alaranjadas, muito raramente brancas e ocasionalmente pretas.

A riqueza arqueológica da região levou ambos os municípios a planearem a Rota Internacional das Pinturas Rupestres, “única no mundo”, explica à Efe o vice-presidente da Câmara Municipal de Marvão, Luís Costa.

O principal temor, explica Oliveira, é que alguém destrua as cavernas: “Quero divulgar, mas temos que ter cuidado”, alerta sobre este projeto, que ainda está em estado embrionário.

UMA JÓIA DA PENÍNSULA IBÉRICA

As imagens da mulher em trabalho de parto, em estilo esquemático, fazem parte da tradição ancestral de representações da mulher grávida e mais esporadicamente no parto, explicam Oliveira e a antropóloga Maria Filomena.

A descoberta “única” para Portugal insere-se numa conhecida tradição de representações esquemáticas de mulheres em trabalho de parto presentes noutras grutas da Península Ibérica.

Na Andaluzia (sul de Espanha) destacam-se as encontradas em Las Peñas de Cabrera, em Casabermeja, e a Cueva de El Laurel II, em Jerez de la Frontera, enquanto em Castilla-La Mancha (centro) se encontra em Perla Escrito, na Sierra de Madrona, perto de Ciudad Real.

As diferenças com as encontradas em Portugal são as posições da mulher e as fases do parto, centradas na dilatação e expulsão. EFE

bbo/sea/cgg/pi

(Foto)

Chico Braga

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